Produtividade recorde não salva o Judiciário: entenda por quê

Por Gustavo de Paula*
O Judiciário brasileiro vive um paradoxo matemático. Em 2024, magistrados e servidores alcançaram uma produtividade impressionante: baixaram 44,8 milhões de processos, superando os 39,4 milhões de novos casos registrados no mesmo período. Na superfície, a Justiça brasileira aparece "no azul". Porém, o quadro real permanece desafiador diante de um estoque acumulado de 80,6 milhões de processos que ainda aguardam resolução.
Se a Justiça parasse de receber novas ações hoje, levaríamos quase dois anos apenas para limpar esse acervo atual. Considerando o ritmo real de escoamento dos processos – cerca de 5,4 milhões por ano – o estoque só será zerado em 2040.
O paradoxo da produtividade e o limite humano
O dilema do Judiciário não está em trabalhar mais, mas em trabalhar diferente. O esforço humano atingiu seu teto. Apesar da dedicação dos profissionais da área, o modelo manual está esgotado.
O orçamento público investe R$ 689 por habitante para manter a máquina jurídica funcionando. No entanto, essa estrutura não aguenta mais 15 anos de expansão só no esforço humano. A solução não é contratar mais servidores, mas sim revolucionar o paradigma tecnológico.
Hoje, a Justiça transita da digitalização para a agencialidade, um conceito que traz a Inteligência Artificial (IA) para além do simples apoio burocrático. Até pouco tempo, a IA no Direito servia para transcrever audiências ou organizar documentos – tarefas importantes, mas limitadas. Com a chamada Justiça Agêntica, o próximo salto é a automação da tomada de decisão justa.

Diferente das IAs generativas tradicionais, que podem apresentar respostas imprecisas ou vagas, a IA agêntica opera dentro de um ambiente controlado e técnico. Ela é capaz de analisar em larga escala o estoque judicial, identificar padrões entre milhões de processos repetitivos e preparar minutas de decisão que respeitam rigorosamente a jurisprudência.
Assim, o juiz deixa de ser um mero operador de dados para se tornar um revisor estratégico, focado na complexidade e nos aspectos de equidade dos casos.
Como a tecnologia pode antecipar 2040 para 2026
A morosidade do Judiciário é mais do que um problema para advogados e partes envolvidas: é um gargalo econômico que trava investimentos e gera insegurança jurídica. Em média, um processo leva aproximadamente sete anos para ser finalizado, tempo incompatível com a dinâmica atual da sociedade.
A introdução da IA como eixo central da estratégia judicial traz resultados concretos. Um exemplo é o estudo de caso da Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais, onde o tempo de resposta caiu 83% em poucas semanas após a implementação de tecnologias inteligentes.
Importa destacar que a tecnologia não tem o objetivo de substituir o julgamento humano, e sim de protegê-lo e valorizá-lo. Ao automatizar tarefas repetitivas e pouco estratégicas, a IA devolve ao magistrado a capacidade de focar no que realmente importa: a análise profunda e justa dos processos.
O relatório "Justiça em Números", do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aponta o diagnóstico com clareza. A matemática, por sua vez, apresenta o prazo fatal: se o modelo atual persistir, o cidadão que busca justiça hoje só terá uma resposta definitiva da Justiça brasileira daqui a 15 anos.
A tecnologia agêntica deixa de ser, portanto, uma simples opção de modernização para se tornar o único caminho viável para que o ano de 2040, quando o estoque atual poderá ser zerado, chegue para o Brasil em um futuro muito mais próximo — quem sabe já em 2026.
Considerações finais
O Judiciário brasileiro demonstra que produtividade por si só não basta para enfrentar os desafios do século XXI. O paradigma do esforço humano tem limites físicos e financeiros, e a solução passa pelo uso inteligente da tecnologia, especialmente da Inteligência Artificial agêntica, capaz de transformar o modo de operar da Justiça.
Assim, a verdadeira revolução está em mudar a forma de trabalhar — trazendo mais eficiência, rapidez e justiça para uma instituição que é a base do Estado Democrático de Direito.
*Gustavo de Paula é Country Manager da Xertica.ai no Brasil.
Leia a matéria original no Canaltech.
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